ele não gostava de mim, eu sempre soube disso, mas continuava ali, a espera de algo, de um sinal, de mais do que carinhos por entre os lençóis. eu era uma "criança"quando o vi pela primeira vez. tinha 15 anos e soube logo ali que era ele quem eu queria. ele não era um rapaz qualquer, era o Rapaz. nenhuma das minhas amigas compreendia o porquê de eu viver fixada num rapaz que só me queria quando mais ninguém o queria. na altura eu achava que seria por ter alguém mais velho que gostava da minha companhia, mas agora sei que era amor. e sempre foi. desde o primeiro olhar até hoje.
ele gostava de mim porque eu não cobrava nada, não exigia, estava presente e sabia quando me afastar.
se recuar uns anos, foi ele que me procurou, claro que eu insisti para ele me dar uma oportunidade, mas foi ele que procurou. quem deu o primeiro passo foi ele. ele procurou o primeiro beijo, o primeiro carinho e o primeiro conforto por debaixo dos lençóis. mas eu continuar aqui, a espera, só a mim é que posso culpar. eu é que me apaixonei, eu é que amei e deixei o que sentia de lado para não o perder.
na universidade que eu frequento conheci um rapaz que se tornou logo meu amigo. partilhamos a mesma historia, os personagens são diferentes e os papéis estão invertidos.
ele sofre por ela, e eu por ele. estranho, um pouco estranho. encontrei alguém com quem posso falar sobre o que se passa na minha vida.
agora passo todas as noites com ele no meu apartamento, a conversar, a rir, mas a maior parte das vezes, adormeço no colo dele a chorar, porque a pessoa que amo, está no bar habitual, a beber a bebida habitual, a dançar a mesma música vezes sem conta e no final da noite leva a loira mas vistosa para casa, para quarto, para os lençóis que milhares de vezes partilhamos.
a verdade é que nós, pelo menos para mim, não era só sexo, também era pela companhia, pelas conversas a meio da noite, pelos sorrisos bobos, pelas gargalhadas, pelos carinhos involuntários da parte dele, e dos "amo-te" que ele me sussurrava quando a manhã se aproximava e eu fingia que ainda estava a dormir, só para poder desfrutar um pouco mais da beleza que ele possui.
convenci-me que seria desta que deixaria de vez e tentaria levar a minha vida o mais normal possível, não vou ao bar, não respondo as mensagens que me manda, guardei os álbuns de fotografias, as camisolas que ele deixou esquecidas na cadeira do meu quarto, deixei de comprar a cerveja que ele gosta de beber. aos poucos estou a tentar retirar parte dele de mim, não vou conseguir pela totalidade pelo simples facto de ele ser ele.
sempre que vou a janela, por breves segundos, sinto que ele está la em baixo, naquele carro preto, a olhar para mim. por vezes penso que ele também sente a minha falta e que eu fui muito mais do que um mero corpo que possuiu sempre que quis. quero pensar que talvez, bem lá no fundo. os "amo-te" dele pela manhã fossem mesmo verdadeiros.
está tarde, e o meu amigo tem que ir embora, ele conseguiu resolver o problema dele com a pessoa que ama. quem me dera que o meu fosse tão fácil assim. quem me dera que ele se desse conta que eu era a única.
deixo um sorriso escapar e um abraço apertado. prometo que fico bem e que estou verdadeiramente feliz por ele. a verdade é que estou, só com uma pontinha de tristeza.
juro que aquele carro parece mesmo o dele ...
aquele corpo ali a chuva parece mesmo ele ...
mas sei que não é. ele está no bar ... e eu estou aqui, na janela do meu quarto ...
serie ela e ele...

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